A culpa é da Baleia – Será?

A frase “a culpa é da baleia” foi postada por um adolescente de 17 anos que tentou se jogar na ultima quarta-feira, 19, do viaduto sobre a Rodovia Marechal Rondon, em Bauru, interior paulista. 1  A “baleia” que o jovem se refere é na verdade um suposto jogo que se espalha pela Internet em vários países e vem ganhando força no Brasil: é o chamado “Jogo” da Baleia Azul (Blue Whale). Nos últimos dias as pesquisas pelo suposto jogo no google aumentaram em mais de 1.000%, o fenômeno não se trata de um aplicativo, programa de computador, serviço ou plataforma online que possa ser acessada, são na verdade grupos em aplicativos de mensagens, comunidades e fóruns em redes sócias que recrutam jovens e lançam desafios que incitam a automutilação e suicídio.

Conteúdos de violência em mídias sociais já existem há muito tempo e não é de agora que especialistas vêm chamando a atenção para esses acontecimentos, o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI) emite todo ano um relatório de pesquisa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes no brasil – TIC Kids Online e já aponta um número crescente de crianças  e adolescentes que relatam terem tido acesso à páginas que ensinam formas de se machucar e cometer suicídio, em 2012 segundo a pesquisa 7% dos entrevistados acessaram conteúdos de autolesão enquanto 3%  tiveram acesso a conteúdos sobre formas de cometer suicídio, esses números saltaram para 13% e 9% respectivamente em 2015.(CGI.br, 2015a).2

O fato é que nos últimos dias relatos sobre a proliferação de grupos no WhatsApp e nas redes sócias associados ao “baleia azul” tem ganhado contornos reais e está causando pânico entre as famílias, escolas e a comunidade em geral.

Para muitos, toda esta repercussão pode ser exagero, porém não podemos descartar que existem grupos mais vulneráveis de pessoas, sobretudo adolescentes com históricos de depressão, tentativas de suicídio e outros sofrimentos psicológicos graves, que preferem discutir seus problemas no mundo virtual para pessoas que nem ao menos conhecem, do que para seus pais e familiares, por acharem que são incompreendidos. Segundo o relato de uma mãe que viu seu filho “cheio de cicatrizes nas pernas e nos braços onde um dos cortes mostrava uma baleia e os outros formavam palavras” ao indagar o filho porque havia feito aquilo, o jovem teria afirmado que estava participando do “jogo” e que estaria na 14ª fase e que se morresse “ninguém sentiria a sua falta”.3

Conclui-se que o problema não é apenas caso de segurança publica, é também uma questão de saúde publica, todos precisam refletir sobre a facilidade que as novas tecnologias têm inserido crianças e adolescentes a conteúdos prejudiciais, distorcidos, discriminatórios ou excludentes. Temos por exemplo o cyberbullyng, o sexting, discursos de ódios e tantos outros, o fenômeno “baleia azul” não é novo e nem o único. Os pais, educadores e outros profissionais ligados à educação, saúde e segurança precisam conversar com as crianças e adolescentes sobre como lidar com os riscos à sua volta.

 

1 – http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,oito-estados-tem-suicidios-e-mutilacoes-sob-suspeita-de-ligacao-com-baleia-azul,70001745155 – acessado em 20/04/2017 às 14:00

2 – http://www.lse.ac.uk/media@lse/research/EUKidsOnline/ParticipatingCountries/PDFs/BZTIC-Kids-2015.pdf – acessado em 23/04/2017 às 14:47

3 – http://www.opopular.com.br/editorias/cidade/adolescente-que-jogava-baleia-azul-diz-para-a-m%C3%A3e-ningu%C3%A9m-vai-sentir-minha-falta-mesmo-1.1260532 – acessado em 23/04/2017 às 16:18

Moisés de Oliveira Cassanti

Moisés de Oliveira Cassanti

Bacharel em Direito; Pós-Graduado em Direito Penal e Processo Penal; Membro da Comissão de Direito Digital e Compliance da OAB SP; Palestrante; Analista de Sistemas; Administrador de Redes; Programador; Policial Civil do Estado de São Paulo especialista em Crimes Cibernéticos e Autor do Livro “Crimes Virtuais, Vítimas Reais”; Criador e mantenedor do site "Crimes Pela Internet".

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