Hacker e a Literatura Ocidental… ou Como é Fácil Invadir o Site do Vizinho

Invadir e roubar informações é o principal objetivo de qualquer espião que se preze. Seja ele um superagente que divide seu tempo entre missões e lençóis de seda, como James Bond, ou um bem treinado e desmemoriado matador profissional, como Jason Bourne. O ápice de uma missão secreta bem sucedida envolve, invariavelmente, um ou outro tipo de informação.

X-Company - Série sobre agentes canadenses durante a II Guerra Mundial
X-Company – Série sobre agentes canadenses durante a II Guerra Mundial

Em um passado não tão remoto, espiões e soldados reais arriscavam suas vidas para conseguir pedaços de informação em cantos remotos do globo. Munidos de câmeras fotográficas nada miniaturizadas, rádios transmissores tão pesados quanto uma televisão moderna, uniformes falsificados costurados pela tia da vizinha, códigos embutidos em manuais grossos como o Alcorão e uma boa dose de coragem – ou demência, mais provavelmente – estes homens e mulheres não tinham vida fácil. Uma missão típica poderia envolver uma pequena viagem de alguns milhares de quilômetros em território hostil, à noite – enfrentando tempestades, nevascas e xingamentos diversos –, saltar de paraquedas junto a um monte desconhecido, rezando para não quebrar o pescoço em algum pinheiro mal intencionado, esgueirar-se junto à base inimiga, escapulir lá para dentro – usando sua lábia, ordens falsas ou o uniforme da tia da vizinha, que provavelmente trazia um “Made in USA” na gola –, encontrar a informação no meio de arquivos de aço, fotografá-la ou copiá-la a mão, sair da base sem ser notado, correr como um louco desvairado por entre campos minados e florestas repletas de soldados inimigos, fumar um cigarro ou dois, ser resgatado por um barco, avião, trem ou uma parelha de burros, o que aparecer primeiro.

Em mais ou menos cinco ou seis dias, a informação estaria nas mãos de um gordo e bigodudo general, que passaria os olhos pelas letras garranchadas enquanto se perguntaria porque o sujeito lhe trouxe a lista de convidados do sobrinho do general do inimigo.
Enfim, era difícil, mas exequível. Bastava um pouco de planejamento, uma grande quantidade de dinheiro e uma quantidade maior ainda de sorte. Tudo que um bom escritor precisa.

A literatura de espionagem explodiu logo depois da II Guerra Mundial, por motivos óbvios. Considerando que os espiões da época eram recrutados entre os soldados e a população civil, havia uma possibilidade real do sujeito que passava as tardes regando os gerânios na casa ao lado da sua ser um espião à serviço de uma nação estrangeira. A espionagem de guerra, retratada em livros e filmes por mais de meio século, investia pesado nas condições adversas e na inteligência e sagacidade de seus heróis. Um bom espião era capaz de maravilhas com um canivete e um clipe, o que deixaria papai MacGyver orgulhoso.

Mas o tempo é inexorável. A tecnologia invadiu as agências de espionagem e, na sua esteira, a própria literatura. Com a popularização dos livros de Ian Fleming, espiões utilizavam cada vez mais gadgets tecnológicos para obter sucessos em suas missões. A série Missão: Impossível – 1966/1973 – contribuiu para ampliar o leque de equipamentos. Aqui, ainda nos primórdios da computação e do armazenamento em massa de informação, invadir um local ainda era o meio mais seguro para obter clandestinamente a lista de salgadinhos que o ditador bigodudo iria servir na próxima semana.

Com a onipresença da internet e da computação em massa, os escritores se defrontaram com um novo dilema. E diálogos assim se tornaram comuns: É possível obter informações pela internet? Sim. Mesmo confidenciais? Sim. E como se faz isso? Hackeando um computador. Legal! Me ensine. Ensinar o quê? A hackear um computador. Mas você usa computadores? Não. Mas uso máquina de escrever. Não é a mesma coisa? Ai…

A questão era mais complexa. Não adiantava conversar com “profissionais” do ramo, como muitos escritores afirmavam ter obtido suas informações quando da construção dos seus personagens. Mesmo que um leigo conseguisse entender a diferença entre um Ataque de Negação de Serviços e um Ataque por Exploração de Protocolos, provavelmente a explicação se tornaria absolutamente maçante para a maioria dos leitores.

007lasers
James Bond – Die Another Day

Então, como a literatura – e o cinema, o teatro, a televisão e quaisquer outras narrativas – poderiam resolver este dilema? Há dois caminhos. Se a informação estiver em um lugar fora da rede – como no filme Missão Impossível, de Brian de Palma, onde Ethan “Tom Cruise” Hunt precisa roubar uma lista que se encontra nos quartéis da CIA –, o herói poderá, deverá e usará qualquer gadget tecnológica absolutamente cara e fantástica para poder abrir o cofre, desviar do raio laser ou preparar um cappuccino.

Mas e se a informação estiver na rede? Simples. Neste momento, é realizada a mágica do desaparecimento dos espiões boa-pinta ou voluptuosos e eis que surgem os hackers franzinos e desconfiados. Entre uma piscadela ou outra, coçando uma espinha com um dedo sujo de gordura, eles são capazes de abrir reservatórios de água em países inimigos, modificar a trajetória de satélites, mudar os sinais de trânsito, desviar trens e aviões, afundar navios… e quase nunca ter a companhia de Angelina Jolie.

E, apesar dos danos causados pelos hackers reais serem significativos, nada se compara ao que os nossos amigos virtuais conseguem fazer. Na narrativa fantástica, o site do vizinho está ali, indefeso, só esperando para ser saqueado, corrompido ou malogrado. Ao transformarmos a computação em uma caixa preta fantasticamente complexa e ininteligível, também a transformamos em uma espécie de cartola de mágico. Como poucos conseguem entender o que poderá sair dali, então tudo é possível.

Com a exceção, talvez, da Angelina Jolie.

Andre Zanki Cordenonsi

A.Z.Cordenonsi é professor na Universidade Federal de Santa Maria. Formado em computação nesta mesma universidade, possui mestrado e doutorado na área de Inteligência Artificial. Também é escritor, roteirista de quadrinhos, pai e marido. Quando sobra tempo, inventa alguma coisa. Seu último romance é "Le Chevalier e a Exposição Universal".

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: